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Por: Maria Clara Lucchetti Bingemer
Não é de hoje que os cristãos especulam sobre a figura de Judas Iscariotes, um dos doze apóstolos que acabou por entregar Jesus nas mãos daqueles que o mataram. Agora, a tradução e análise de um manuscrito com mais de 1.700 anos levanta a hipótese de que Judas, ao contrário de um traidor, seria o discípulo preferido de Jesus. As revelações foram feitas ontem pela National Geographic Society, numa conferência de imprensa que deu a conhecer ao mundo, pela primeira vez, algumas páginas do famoso Evangelho de Judas.
Redigido em língua copta, o manuscrito - ou códice - data dos séculos III ou IV e constitui a única cópia conhecida do Evangelho de Judas, cujo original teria sido escrito em grego por um grupo de gnósticos, antes do ano 180. A análise das 26 páginas do papiro - 13 pranchas escritas de ambos os lados - sugere que Judas estaria, afinal, cumprindo os desejos de Jesus quando o entregou às autoridades.
Não é difícil imaginar o reboliço que esta descoberta suscita na imaginação de muitos. Estaria sendo derrubado definitivamente o mito sustentado durante tanto tempo de que Judas teria traído Jesus e que por isso seria uma figura maldita? A linguagem popular designa como Judas as pessoas em quem não se pode confiar. E a agressividade, sobretudo em meios rurais ou mais populares, no sábado de Aleluia, faz sua catarse na tradicional “ malhação do Judas ”, quando um boneco recebe golpes e bordoadas de crianças e jovens pela traição cometida pelo apóstolo.
Mas as especulações do documento vão mais longe. Trazem uma interpretação gnóstica para explicar a relação entre Jesus e Judas. Este na verdade não teria sido um traidor. Mas longe disso, seria o apóstolo privilegiado que teria a missão de entregar o Mestre a fim de libertá-lo do corpo que o revestia e liberar a divindade que o habitava.
Nada mais distante daquilo que mais de vinte séculos de cristianismo experimentaram e proclamaram como o núcleo mais profundo da Boa Nova do Evangelho. A Encarnação de Deus em Jesus de Nazaré em nenhum momento é um peso abrumador ou algo negativo do qual é preciso libertar-se. O mistério da Encarnação diz justamente que o amor de Deus pela humanidade é tanto que Ele não se contenta em amá-la desde a sua divindade, mas vem ao encontro de sua criatura e entra na sua condição finita e mortal, fazendo-se carne e nascendo de mulher como qualquer outro ser humano sem deixar de ser Deus.
A maravilha do mistério de Jesus Cristo é justamente revelar que o único caminho autêntico e coerente para a comunhão com o verdadeiro Deus passa pela pobre carne humana, finita, mortal, limitada e sensível. E é assim que aquele que tinha a condição divina aprende a falar, a caminhar, sente frio, fome, come, bebe, vai a festas, chora pelo amigo morto, alegra-se por ver que aos pobres é anunciada a Boa Nova. E finalmente enfrenta o conflito que sua pessoa provoca, sendo fiel e obediente até a morte de cruz. |